Escrito por Eduardo Sá Quarta, 01 Outubro 2014 

Os medos são naturais como a sede e fazem bem à saúde de todas as crianças. Na verdade, elas fazem, unicamente, de “João sem medo” não porque sejam destemidas mais ou menos “de origem” mas quando o pais têm uma fórmula especial para lidar com eles. E é aqui que, geralmente, tudo se complica.

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Os medos são naturais como a sede e fazem bem à saúde de todas as crianças. Na verdade, elas fazem, unicamente, de “João sem medo” não porque sejam destemidas mais ou menos “de origem” mas quando o pais têm uma fórmula especial para lidar com eles. E é aqui que, geralmente, tudo se complica.

Em primeiro lugar, há pais que têm um bocadinho de medo... dos medos das crianças. Que ficam com um “nervoso miudinho” quando elas têm medo e, por mais que não o digam, e falam dos medos como se fossem uma conta de subtrair e deixam entender que os medos mais parecem puzzles de onde sobram – sempre! – algumas peças. Ora, é importante não perdermos de vista que não há como não termos medo. Não quero dizer que os medos sejam tão fatais como o destino parece ser para algumas pessoas. Mas, no fundo, os medos são um excelente “indicador de parqueamento” com que todos nascemos equipados e representam um software que faz atualizações espontâneas quase todos os dias. Para além, é claro, de “apitarem”, dentro de nós, antes de nos aproximarmos de um obstáculo que, noutras circunstâncias, acabou por nos magoar (mesmo que, à primeira vista, pareçam medos... parvos).


Em segundo lugar, é bom nunca perdermos de vista que, por mais estranhos que pareçam, não há medos parvos nas crianças. Por mais que elas falem dos medos duma forma um bocadinho metafórica. Isto é, se o medo da professora não deixa grandes dúvidas, por exemplo (talvez porque venha acompanhado de pesadelos, de birras e de um ou outro vómito, de manhã), o medo do escuro (talvez o mais popular entre todos os medos, antes mesmo do medo dos monstros) já é mais difuso, o que deixa os pais, ao contrário do que deviam, com o receio desmedido de representar uma febre teimosa que resiste aos mais fofos dos mimos.


Em terceiro lugar, é bom que, tirando os medos que fazem parte do equipamento de todas as crianças – os bebés não precisam de andar aos abraços a serpentes ou a animais de grande porte, por exemplo, porque têm um código genético que lhes desaconselha esses desvarios – os medos são aprendidos. E, regra geral, os pais são os melhores professores do mundo para os medos das crianças. Sempre que elas se deparam com o que é novo e estranho, olham, em milésimos de segundo, para o olhar de um dos pais para que, no caso dos olhos deles revelarem preocupação ou medo, por exemplo, se orientarem fazendo suas as reações que esse “semáforo”  fabuloso lhes traz, a todo o momento. Os medos não se pegam, portanto, mas transmitem-se, em suaves prestações, mesmo que os pais imaginem nunca ter falado deles, seja em que circunstância for. Não falarem dos seus medos não significa que as crianças não os identifiquem, minuciosamente, uma vez que, como todos sabemos, elas “tiram as medidas” aos pais até ao mais fundo das suas “almas”.
Em quarto lugar, devia ser proibido dizer a um filho “não tenhas medo!”, até porque isso se presta a más interpretações. Se, nalgumas vezes, serve para dizer, de forma bondosa, “eu estou aqui; logo, não deixo que te aconteça nada!”, em muitas circunstâncias, serve, também, para trazer a maior das confusões. Porque, ao mesmo tempo que, um dos pais, diz a uma criança “não tenhas medo” o seu olhar transmite medo daquilo com que ela se assusta e medo de não ser capaz de gerir o medo que parece estar a tomar conta dela. Ou seja, se é para dizer “eu estou aqui”, mais vale não deixar espaço para grandes confusões. 


Em quinto lugar, ao contrário do que pode parecer, o medo é uma questão de sabedoria. Depois de nos magoarmos muito com qualquer coisa passamos a tentar evitar tudo o que seja mais ou menos semelhante àquilo que nos magoou. E isso é bom, desde que não evitemos demais. Aliás, se evitar um medo pode ser protetor, evitá-lo demais prende-nos a ele. E é neste “quanto baste” que os pais são preciosos como polícias dos medos. Mesmo que, ao contrário do que dizem aos filhos, os pais, sempre que ficam mais velhos, tornam-se mais... medricas. Tirando o medo da morte – que é uma espécie de “mãe de todos os medos” – à medida que corremos alguns riscos, uns mais pequenos que outros, trazemos prudência ao lado voluntarioso com que crescemos. Aliás, basta olharmos – com os olhos de quem foi aprendendo com o medo – para os perigos ou para os riscos que os nossos pais nos deixaram correr para ficarmos com o devaneio de sermos muito menos competentes do que eles. Na verdade, nunca ninguém nasce bem curado do umbigo, como dantes se dizia, dando a entender que a ousadia ou o lado mais afoito de algumas crianças seria uma espécie de “competência de fabrico”. O que se passa é que os pais, à medida que fazem de anjos da guarda mais protegem os filhos e, portanto, mais os ajudam a ser corajosos, audazes e, até, desafiantes. Por outras palavras, as crianças tornam-se destemidas sempre que os pais fazem de para-raios para os medos. E isso é bom. Por mais que a dificuldade dos pais passe por nunca as protegerem demais. Crianças protegidas demais não arriscam e, se não o fizerem, não se tornam destemidas: passam (antes) a ter medo do medo. E isso é mau.

Em sexto lugar, os medos são sempre irracionais. Isto é: a fórmula “explica à mãe porque é que tens medo” funciona tão bem como “contar carneiros”para adormecer. Por outras palavras, racionalizarmos o medo é a melhor forma de ficarmos presos a ele. Porque há sempre um bocadinho de medo que é uma metáfora (uma imagem, se preferirem). Explicar a uma criança que não há monstros debaixo da cama, por exemplo, nunca lhes resolve um problema. Porque, bem feitas as contas, ela desconfia que isso não aconteça. Mas, nunca fiando: se os monstros aparecem nas histórias fantásticas, nos desenhos animados e etc., se têm formas horríveis e vozes cavernosas que assustam, até, os mais corajosos, quem lhes garante que eles não andam por aí?... Mas, sobretudo, quem lhes garante que, chegada a hora da verdade, os pais não irão vacilar diante dum monstro e se, da mesma forma são excessivamente bem comportados diante da Brigada da Trânsito ou perante um acesso de mau-humor dos avós, não viram meninos pequeninos – muito ao jeito de “se não fosse por nada, eu dizia-lhe duas coisas” – e ficam num “vai tu; não, vai tu” que deixa qualquer filho de nervos em franja? Por outras palavras, as crianças não querem saber se os monstros existem. Há muito tempo que elas desconfiam que sim. O que elas precisam mesmo de estar certas é que os pais, sejam os monstros quem forem, fazem de super-heróis e lhes dão os corretivos indispensáveis. Ora, quando se chega a um patamar do género: “explica à mãe porque é que tens medo...” a legenda, em português de criança, é: “eu já percebi que tens medo e, feitas as contas, sou levada a imaginar que não sabes, exactamente, de quê; mas, se isso te deixa sossegado, eu também... não” não dá descanso a ninguém... Por outras palavras: os medos não se resolvem com explicações (“já viste que as janelas estão fechadas”, por exemplo, não é grande explicação porque, monstro que é monstro, atravessa as paredes). Ao falarem de monstros, as crianças estão a dizer aos pais: “Mas isso de me protegeres sempre, seja do que for, e nunca me deixares morrer, é mesmo verdade?...” Ora, se os pais, por mais que as crianças alarguem a baliza, o melhor que conseguem é acertar na trave, convenhamos que não só as levam a ter o medo que já tinham acrescido, agora, do medo dos pais não estarem à altura dum “super-polícia”. O que lhe estou a propor é que se não percebe o medo do seu filho, não invente! Diga-lhe a verdade: “A mãe não consegue entender muito bem o teu medo mas, duma coisa podes estar certo: seja o que for que te fizer mal, a mãe pega-lhe pelos colarinhos, abana-o como deve ser, abre a porta de casa, dá-lhe um pontapé pelas escadas abaixo que, seja lá o que for que te faça mal, vai pensar duas vezes antes de voltar cá a casa!”. Mesmo que seja a minha professora (pensará uma criança)? Mas, não se incomode: as perguntas inconvenientes são uma edição limitada dos filhos das suas amigas... Fácil, portanto...

Em sétimo lugar, há momentos que entre o medo que uma criança tem seja do que for e o medo da mãe ou da pai eu prefiro que ela tenha mais 20 mg de medo da mãe ou do pai. Por outras palavras: sempre que temos medo há uma reação de raiva, dentro de nós, que é tão natural como a sede. Alguns pais dão murros na mesa e uma ou outra mãe partem uns pratos... Portanto, isto não é uma novidade do tamanho do mundo para os pais: a raiva, embora convenha que não se exagere, serve de ansiolítico e isso ajuda a vencer a inibição que todos os medos acabam por trazer, através da qual acabamos por ficar um bocadinho... mais burros. Mas se um medo é grande e, a seguir, temos uma mãe ou um pai a amplificá-lo, sem querer – de pergunta em pergunta ou com mais uma pitada de explicações que não descosem os medos – nunca mais é sábado. Até porque, quase como quem decreta pagamentos por conta em relação aos impostos, há crianças que, antes de experimentarem alguma coisa, dizem “não sou capaz” (que é uma forma de reconhecerem, por outras palavras, que têm medo, até, de tentar) o que deixa os pais entre os medos prováveis, os medos presumíveis e os medos antecipáveis (que, regra geral, os põem à beira da fúria). É por isso que a “fórmula” segura para os medos é: “Se, enquanto a mãe ou o pai estiverem aqui, te acontecer alguma coisa má, tens toda a razão para teres medo. Se nunca aconteceu...” Mas, vamos imaginar que uma criança insiste e insiste no medo. Há um momento em que, depois de a avisar as tais duas vezes que, desde sempre, lhe falo, se tiver que se zangar, faça o favor. São os tais 20 mg acrescidos de medo da reação do pai ou da mãe que dão um jeitão porque fazem com que o medo – que, até aí, parecia uma “força de bloqueio” – diminua a olhos vistos. Porque, logo a seguir a fazermos de maus, uma criança fica zangada com a observação dos pais e, por isso, lhes “tira as medidas” com um olhar do género “se não fosse por nada, limpava-te o pó...” para que, quando dá por isso, o medo tenha virado urso de peluche... Zangarmo-nos diante dum medo repetido é uma forma de não ficarmos nem assustados com aquilo que assusta uma criança nem com tremeliques diante dos “efeitos especiais” com que ela lida com ele.

Em oitavo lugar, nunca perca de vista que os piores dos medos de todas as crianças são os medos mais delicados. Os que se evitam, duma forma mais ou menos furtiva. Por exemplo, quando uma criança faz de conta que se esquece dum convite para uma festa dum amigo está a ser batoteira. Ela está, só, a dizer que tem tanto medo de não ser capaz de se sentir bem no meio da festa que tenta, de todas maneiras, evitar “socializar-se”. Aqui, volto a dizer-lhe, ir à festa é tão sério como nunca se esquecer das horas dum antibiótico! Mas, vamos imaginar, que o seu filho evita alguém da sua família e é, até, mal educado, sempre que está com essa pessoa. Não pressuponha logo, por favor, que alguma coisa próxima da pedofilia terá existido. Mas as crianças têm medo de quem tem um olhar deprimido ou mais ou menos zangado. Por mais que seja a avó ou um tio, por exemplo. Portanto, em vez de lhe ralhar, porque ela tem medo de todos os olhares que têm picos, ralhe com a sua mãe ou com o seu irmão... depois de lhes dar o colo que eles lhe mereçam.
Em nono lugar, nunca leve a sério aquela ideia que recomenda que quem tem medo... compra um cão. Fazer dum cão um terapeuta dos medos do seu filho é pôr nos ombros dele uma responsabilidade que fica bem é aos pais. Portanto, isto de deitar a mão a meia dúzia de slogans para resolver um medo está para a taquicardia como o “falar pela positiva”, de alguns políticos, para o saldo da economia... E, já agora, falando neles, lembre-se dos políticos que, depois de prometerem que nunca aumentam os impostos quando o seu filho, no meio dum braço de ferro que faça consigo, lhe diz, num tom de desafio: “Não tenho medo!”. Negar é afirmar duas vezes (tem descoberto isso na sua carteira, não é verdade?). E, por isso, sempre que uma criança diz “não tenho medo!” está a tentar perceber se o pai ou a mãe fazem de totós diante dessa publicidade enganosa quando, na verdade, o que ela quer dizer, é... “mostra que sabes mandar!”  

Finalmente, nunca perca de vista que desafiar um medo é próprio dos medricas. Daqueles que passam a vida a meter medo aos outros (ou, melhor, a meter os seus medos dentro dos outros). O seu filho não precisa de ser isso. Já os guerreiros – como aqueles que tem aí em casa – não são aqueles que não têm medo. Mas, antes, aqueles que, depois de os respeitarem, descobrem em quem se podem apoiar para os vencerem. Ora, esta é a deixa que todos os pais devem ter em consideração, todos os dias:  há lá coisa melhor que os pais podem ser do que guardadores dos medos dum filho?...

http://www.paisefilhos.pt/index.php/opiniao/eduardo-sa/7389-10-receitas-para-cozinhar-os-medos-das-criancas?start=1

 

publicado por salinhadossonhos às 17:34