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Para a criança todas as coisas são possíveis. Os pássaros falam, os sapos transformam-se em príncipes, elegantes e frágeis cavalheiros são capazes de derrotar gigantes, os pinheiros têm sentimentos e ambições. Da mesma forma, a cadeira da cozinha rapidamente se transforma num cavalo, a cómoda num comboio com as gavetas como vagões, a carpete num campo de batalha, o jornal numa coroa de ouro puro. E é nesta realidade que temos de nos basear quando inventamos histórias com elas ou para lhes contar. O primeiro passo é que o façamos com sinceridade e seriedade. Com isto não se pretende eliminar o humor ou a diversão das histórias, mas apenas alertar para o facto de que a criança, para ouvir a mensagem, precisa que o adulto partilhe o seu interesse, pelo que, naquele momento em que contamos o conto, temos que aceitar de forma honesta as fadas, os heróis, os animais que falam… A criança merece uma igualdade de pontos de vista, sem a qual a história não tem sucesso. Ela gosta de fazer de conta, mas de uma forma prática e séria; isto é, mais do que a imaginação, é a credulidade que a ajuda a apreciar e interiorizar a história.

 

 

 

No princípio, era a fantasia

 

O escritor alemão Novalis dizia, nos seus célebres Fragmentos, que se tivéssemos uma Fantasia, assim como temos uma Lógica, estaria descoberta a arte de inventar. E a verdade é que temos uma fantasia. Pode não constar dos compêndios de ensino ou ter honras de domínio do saber, mas existe, e precisa apenas que não tenhamos medos, vergonhas ou pruridos em utilizá-la para se transformar numa poderosa ferramenta de criação. Isto é válido para muitas áreas da vida, mas o que nos interessa para o caso é como podemos pôr a fantasia ao nosso serviço na arte de contar histórias. Como pôr a imaginação e funcionar e criar enredos divertidos para contar às crianças, ou, melhor ainda, criar enredos divertidos juntamente com as crianças.

 

Existem várias técnicas que estimulam a imaginação de miúdos e graúdos, e, embora muitas pareçam ser do domínio popular, a verdade é que quase todas foram inventariadas por Gianni Rodari, um jornalista, escritor e poeta italiano, especializado em educação e literatura infantil.

 

A expressão artística de Rodari através da escrita esteve sempre ligada ao conceito de fantasia, de saber lidar com o irreal e o insólito, de forma a provocar uma reação ao senso comum. Muito influenciado pelo teórico russo Vladimir Propp – um académico estruturalista que analisou os componentes básicos do enredo dos contos populares, tentando encontrar os seus elementos narrativos mais simples e indivisíveis, e identificando 31 funções no corpo da narrativa cuja estrutura é comum a todos -, Gianni Rodari publicou, em 1974, um livro intitulado Gramática da Fantasia, onde propõe exercícios práticos para inventar histórias e inserir a imaginação na educação. Vários desses exercícios foram criados a partir das funções que Propp definiu como elaboradoras da fábula, e que Rodari assumiu como ferramentas para a construção de histórias, “tal como com as doze notas se podem compor infinitas melodias”. No seu livro, os exercícios propostos destinam-se tanto às crianças como aos pais, e mesmo aos professores, sendo que o italiano afirmava que, na educação, a imaginação deve ser considerada tão importante quanto a atenção e a memória.

 

 

 

Mentes criativas

 

Imaginação e fantasia podem ser sinónimos, se considerarmos que o termo “criatividade” é um significado comum entre elas. E, para Gianni Rodari, criatividade significava “pensamento divergente”, isto é, a capacidade de romper com os esquemas da experiência, com o senso comum. Para inventarmos histórias, temos que deixar um pouco de lado a noção atual de criatividade, que perdeu a sua força original, e resgatar o seu significado mais antigo, em que a mente criativa é uma mente que trabalha, que faz perguntas constantes, que descobre problemas onde os outros encontram respostas, que não se acomoda, que recusa o codificado, que não se deixa inibir pelo conformismo, que estranha o comum e o banal. Para Rodari, criar é, no fundo, um exercício de subversão, mas no qual a cultura é fundamental, uma vez que é preciso ler, ouvir, procurar, ser curioso. É preciso consumir para se poder criar, mas consumir com crítica, com capacidade interpretativa, e é aqui que a educação tem um papel fundamental. “Ler é importante”, é uma frase que ouvimos repetidamente, mas que parece vazia de conteúdo. Não o é, de todo. A educação, a curiosidade cultural e a criatividade são a trilogia preconizada por Rodari como a base para um desenvolvimento saudável do pensamento. E assim, transformando o leitor numa espécie de aprendiz de feiticeiro, Rodari apresenta uma série de técnicas e de exercícios para o desenvolvimento da imaginação e da criatividade, com propostas práticas e simples que resultam na produção de narrativas originais. Para contar às crianças ou sugerir que elas mesmas as inventem, desenvolvendo a linguagem, a lógica, o sentido estético, a memória, e, claro, o contato afetivo e a integração. Vamos a isso?

 

 http://www.paisefilhos.pt/index.php/criancas/dos-3-aos-5-anos/5723-como-inventar-uma-historia

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publicado por salinhadossonhos às 12:08