Há crianças verdadeiramente hiperativas, que são um tornado numa sala de aulas, mas que são raríssimas.

 

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As crianças saudáveis são, por inerência, distraídas. Ou “cabeças no ar”, como preferirem. Porque são sensíveis e imaginativas, e são atentas a todos os pormenores apelativos à sua volta. E reagem a eles, claro, em função da competitividade com que se colocam diante si. E sempre que alguém as entedia (um bocadinho, que seja) refugiam-se num conjunto de histórias, que elas mesmas produzem, como se tivessem um quarto de brinquedos na cabeça, a que os pais chamam... “macaquinhos no sótão”. Mas as crianças (todas as crianças!) são, invariavelmente, atentas sempre que alguém – pela forma simples e brilhante como lhes fala ou pelo modo apaixonado e divertido com que as solicita – faz com que os sentidos convirjam uns para os outros e pareçam (todos eles) consensuais, daí nascendo a atenção. É difícil estar-se atento! Depende do jeitinho especial de quem cativa a atenção e de se ter a cabeça mais ou menos arejada para sentir com o outro, imaginar com ele e discorrer com a sua ajuda. E, já agora, é difícil cativar a atenção, sobretudo de muitas crianças, ao mesmo tempo: é preciso que se seja sábio e singular e vivo e que se tenha muito de contador de histórias, de preferência.

Há, no entanto, dois tipos de crianças um bocadinho de candeias às avessas com a atenção. Aquelas que, seja qual for o professor que lhes fale, parecem sempre atentas, e aquelas que são compulsivamente desatentas. As primeiras, parecendo atentas, estão “em sentido”, e em vez de dominarem a atenção são dominadas pelo medo que as pessoas lhe provocam. As segundas, fugindo da atenção, escapam à frente da angústia que se atropela dentro de si. Umas e outras são, portanto, um bocadinho doentes. Se bem que as segundas ocupem mais espaço numa sala de aula, porque são crianças tão consumidas por um sofrimento que as corrói que resvalam para uma euforia estranha que parece levá-las a não sentir, a não imaginar e a não discorrer mas, unicamente, a agir (como se parar fosse, para elas, realmente, morrer). Tomando em consideração todas as crianças, a percentagem das crianças verdadeiramente hiperativas (que, para não definharem de dor, vivem num agir compulsivo) é, verdadeiramente, insignificante. Faz, felizmente, parte das doenças psicológicas muito raras das crianças!

Todas as outras crianças são tão aptas e tão ciosas da sua atenção, são tão vivas e tão interpelantes, são tão engenhosas e tão divertidas, têm tamanhas “línguas de perguntador”, são tão íntimas do “bicho carpinteiro” e falam, com tão grande mestria, “pelos cotovelos”, que a atenção depende muito d’ O Momento... Até porque também têm dias assim-assim ou longos períodos em que a vida delas parece “uma porcaria”. O que, tudo junto, as leva, volta não volta, até à “lua”. Mas se as crianças são mais ou menos assim, o que se passa, então, para que haja por aí uma tão estranha e silenciosa epidemia atípica de défices de atenção? É tentador que, sempre que uma criança parece ter dificuldades, que haja quem sugira que sofre dum qualquer “defeito de fabrico”. Ou que, sempre que ela parece não aprender, a culpa seja, invariavelmente, sua! Se, por agora, a responsabilidade da distração das crianças vai sendo dos “défices de atenção”, há alguns anos, sofriam, quase todas, de dislexia. E, há mais tempo atrás, eram, simplesmente, “burras”. Com a diferença de, atualmente, em relação à “epidemia atípica de défices de atenção”, se vá banalizando a prescrição de uma substância da família das anfetaminas.

Enquanto se insiste nos défices de atenção que elas parecem ter, não se questionam os conhecimentos e os recursos pedagógicos de alguns professores. Isto é: entre discernir acerca dos défices dum professor para cativar a atenção dum conjunto de crianças ou concluir-se, apressadamente, que elas têm um défice de atenção, o resultado fica, quase sempre, em 1 a 0 a favor dos defeitos das crianças. E é aqui que surge um ambiente quase perverso em torno disto tudo... Sim, há crianças verdadeiramente hiperativas, que são um tornado numa sala de aulas, mas que são raríssimas! Isto é: não há tantas crianças assim tão doentes. E sim, há milhares de crianças alegadamente hiperativas mas que são saudáveis, saudáveis, saudáveis (algumas que são, simplesmente vivas; outras, que estão, sobretudo, preocupadas; outras que acham o professor um bocadinho chato; etc.). E, sim, no meio desse mar de equívocos, é verdade que há muitos professores empenhados que, diante duma criança verdadeiramente hiperativa (raríssima, portanto) - e sem que disponham de formação para o efeito e à margem de qualquer apoio especializado por parte da escola (que, nalgumas circunstâncias, têm um psicólogo para cada 3 000 crianças e que, noutras, dispondo dele, não têm da sua parte as respostas à altura que serão exigíveis) - são engolidos pelo vendaval de angústia que ela traz a um grupo de meninos. E sim, finalmente, é verdade que há professores que só toleram crianças sossegadinhas e caladas (assustadas, portanto) e que, diante dum conjunto de dificuldades que elas lhe colocam, se refugiam, invariavelmente, nos défices de atenção que elas terão (havendo alguns que recomendam a tal anfetamina; outros, mais comedidos, que se ficam por sugerir um “cheirinho” de anfetaminas;  e, outros, ainda, que, a par de refugiarem qualquer dificuldade nesse diagnóstico, aconselham um ou outro médico que, seguramente, as medica). Mas serão os professores batoteiros e os professores distraídos (uma imensa minoria, seguramente) amigos da imensa maioria de professores atentos, generosos e empenhados que deviam ser, sem demagogia, equiparados, mais que ninguém, à categoria de heróis nacionais? Obviamente, não!

Por outro lado, duma forma manhosa, o “sistema educativo” vai pactuando, pelo silêncio, com esta onda de défices de atenção. Não se questionam programas, não se discute o modo como a escola funciona quase em contra-ciclo diante da “sociedade da informação”, não se interpela a insensatez de haver turmas da manhã e turmas da tarde no funcionamento diário duma escola (como se aprender num e noutro períodos fosse a mesma coisa!), não se discute o absurdo de existir escola demais na vida das crianças (como se a escola fosse mais indispensável que a família e mais importante que o brincar), nem se pede contas a quem aumenta o número de meninos nas turmas nem poupa no tempo dos recreios (com a desculpa de não existirem verbas para o pessoal auxiliar). Tudo “empurrõezinhos” amigos dos défices de atenção, portanto. Por outras palavras, se há uma entidade que ganha em distração a todos os outros, o Ministério da Educação, ao, longo dos anos, não tem tido rival! Mas quem, neste contexto todo, é mais distraído: quem se distrai de vez em quando ou quem, devendo estar atento, “assobia para o ar”, fazendo de distraído? (É, aliás, delicioso ver como o Ministério da Educação, ao mesmo tempo que privilegia a escola exclusiva, amiga dos rankings, defende a escola inclusiva, aberta a todos, por mais que, sem nunca o assumir, sugere que, diante das necessidades educativas especiais de cada criança, um professor se... amanhe.)

E será que o ambiente em casa é sempre acolhedor e amigável para com a atenção? Será que pais que são um belo exemplo de défices de atenção um para o outro, dos dois em relação a uma criança e de todos em relação à vida são um bom exemplo de atenção para uma criança? Por exemplo: será que todas crianças têm tanto tempo livre e tanto tempo de brincar e de histórias como só as crianças atentas conseguem ter? Será que a vida familiar das crianças não acaba por ser, avós à parte, muitas vezes, dum stresse permanente, com agendas diárias que as faz ter mais tempo de trabalho que os próprios pais e que, por isso, torna a agitação a melhor amiga da distração? E será que os pais são, como deviam ser, uma entidade reguladora para os trabalhos de casa que, regra geral, não adiantam quase nada a quem quer aprender e que magoam, vezes sem conta, a atenção? E será que as crianças correm, pulam e fazem asneiras como só as crianças atentas conseguem engendrar, fazendo do corpo o melhor cúmplice da atenção? E aquilo que os pais dizem dos professores, à mesa do jantar, é um bom motivo para que as crianças os admirem e respeitem e acarinhem como uma luz preciosa que as encaminha pelos desafios da atenção? Mas, sendo assim, quem tem o exclusivo dos défices de atenção? Serão só as crianças? Não é verdade que são sempre precisas duas pessoas para que haja um distraído?

E não será que, quando somos, invariavelmente, acolhedores para esse presumível diagnóstico, não lendo a realidade das crianças duma forma atenta, integrada, sintética e compreensiva não estaremos todos a sofrer, igualmente, de défices de atenção? Precisarão, então, técnicos, professores e pais de uma leve dosagem desse familiar das anfetaminas, durante o período letivo, e de segunda a sexta-feira, como se faz com inúmeras crianças? E, por fim, se estamos diante duma solução mágica para os défices de atenção não seria de a sugerirmos, para não ir mais longe, para os assessores jurídicos do Governo (evitando mais conflitos com o Tribunal Constitucional) ou para quem lê e planeia a economia (poupando crises que os terão apanhado, a todos, distraídos)? Será que, afinal, vivemos todos numa aldeia gaulesa e que – por distração, certamente – sem poção mágica... não vamos lá? É claro que é fácil ter défices de atenção. Vimos alguns dos motivos que a ajudam. Mas considerando esta “poção mágica” que parece resolver tudo e mais alguma coisa no comportamento das crianças, não será hora de deixar de insinuar que os gauleses deviam ser desclassificados num controlo anti-doping, por mais que possamos subscrever os seus ímpetos nacionalistas contra os romanos? E, em vez de nos preocuparmos a sinalizar a mãe do Obelix, junto duma comissão de proteção de crianças em perigo (porque se ela não fosse distraída ele não teria caído na poção...) não devíamos recomendar que as mães negligentes ganhavam se fossem devolvidas ao “bom caminho” com umas gotinhas... de poção? Quer, então, isso dizer que termos a cabeça na lua e os pés na terra deixou de ser um “equipamento premium” que torna cada um de nós mais sensato e mais humilde porque, afinal, nunca se chega à atenção sem a dúvida e sem a ajuda das pessoas?

http://www.paisefilhos.pt/index.php/opiniao/eduardo-sa/7227-a-pocao-magica

publicado por salinhadossonhos às 17:31