Como lidar com as expectativas das crianças no Natal
Paula Monteiro
Aproxima-se o Natal, uma das épocas mais bonitas do ano. Muitos pais esforçam-se para não dececionar os seus filhos, cheios de expectativas trazidas de Natais anteriores e da publicidade da época. Todos querem a oportunidade de ver as suas carinhas de satisfação ao abrirem os presentes.

Por diversas razões, muitos pais questionam-se: “Devo dar-lhe tantos presentes?”; “Será que eles conseguem valorizar os nossos esforços para lhes darmos isto?”; “Conseguirão pensar na sorte que têm em receber presentes (não importa quantos), enquanto outros pouco ou nada têm?”; ”Que impacte terá isto no seu desenvolvimento?”.
Todos os pais querem que os seus filhos sejam felizes, e um dos ingredientes indispensáveis é a capacidade de sentir gratidão. Receber presentes no Natal é uma excelente oportunidade para exercitar este sentimento: “Que bom, recebi o jogo que tanto queria!” Uma criança que não sinta gratidão ao receber presentes não é uma criança plenamente feliz. A simples curiosidade em saber o que está para lá do papel de embrulho dura muito pouco tempo, mas a felicidade dada por um brinquedo que se deseja, e a consciência de que alguém se lembrou dela, é duradoura. Isto é mais fácil de conseguir quando a criança recebe menos brinquedos, pois não se dispersa nem vulgariza o que recebeu. Ela tem de perceber porque é tão importante aquilo que tem. Outro ingrediente para ser feliz é a empatia. Se as pessoas à volta da criança estiverem felizes, ela também estará. O Natal é tempo de dar — por isso é que se recebe! Aproveite este Natal para desenvolver nos seus filhos noções como “ser feliz”, a gratidão e o cuidado com os outros. As sugestões que se seguem podem ser um bom começo:

1. Estabeleça um orçamento
Decida quanto vai gastar nas prendas de Natal ou quantos desejos vai satisfazer. Assim, se o seu filho pedir um presente muito acima do que pretende gastar, não tem de dizer que não tem dinheiro (esta frase baralha as crianças, porque continuam a ver os pais a comprar outras coisas usando o dinheiro que disseram não ter!). Basta dizerem que não têm orçamento para isso; ou seja, que o dinheiro que têm vai ser gasto de outra forma. São os pais que controlam a situação, não as circunstâncias nem a criança. Desta forma, os pais vão poder lidar melhor com a culpa de dar de mais ou de menos – a responsabilidade é do orçamento!

2. Peça-lhes uma lista
Peça-lhes que façam uma lista dos presentes que querem (p. ex., dez). Dessa lista, peça-lhes que escolham aqueles de que gostam mesmo muito (p. ex., cinco). E desses, peça-lhes que escolham o(s) presente(s) (de um a três) que gostariam mesmo de ter se só pudessem ter esse(s). A escolha pode ser difícil, mas escolher de entre os itens da sua lista desenvolverá a sua capacidade de escolha e trabalhará a sua resistência à frustração, se os pais enfatizarem que eles não terão todos os presentes da sua lista: só aqueles que querem mesmo! Se quiser reduzir o número de presentes relativamente ao ano anterior, deve fazê-lo de forma gradual; passar de trinta para dez pode ser dececionante de mais para poder exercitar gratidão. No entanto, se a situação familiar não o permitir, fale com os seus filhos antes do Natal e explique o que se passa, sem muitos pormenores: mostre que está a controlar tudo, para lhes dar segurança, e fale-lhes do orçamento que todos têm de seguir.

3. Exercite a empatia dando presentes
Existem muitas pessoas à volta das crianças que elas podem fazer mais felizes, algo que também contribui para a sua própria felicidade. As crianças podem ajudar a comprar um presente para um irmão ou um dos pais; este deve ser escolhido tendo em conta aquilo de que a outra pessoa poderá gostar. As crianças podem também oferecer brinquedos que já não usem a alguém em particular ou a instituições. No entanto, devem ser as crianças e não os pais a escolher que brinquedos oferecer. Serem elas a fazê-lo dá-lhes uma sensação de controlo, ajuda-as a lidar com a perda de forma inofensiva (de um brinquedo que já não usam) e permite-lhes experimentar a verdadeira generosidade, ao oferecerem algo a outra pessoa que parte de si quereria manter. Serem os pais a fazê-lo pode violar os limites da criança e retira-lhes a oportunidade de experimentar tudo isto.

4. Ponha o foco na família
Na noite de Natal, mantenha um ambiente agradável. É verdade que o momento da troca de presentes é especialmente valorizado pelas crianças; mas, nos próximos anos, elas irão lembrar-se melhor da atmosfera emocional daquela noite do que dos presentes que receberam.
Depois da euforia da troca de presentes, o Natal continua. No fim da noite, mostrem uns aos outros os presentes que receberam. Incentivem os vossos filhos a terem a atitude certa perante todos ("Que bom que tiveste isso!", "Vais poder fazer isto ou aquilo com essa prenda!"). Por fim, reserve um último presente para ser aberto no fim da festa ou na manhã seguinte. Em minha casa, chamamos-lhe "o presente da família": qualquer coisa que todos os membros recebem e partilham, que não é de ninguém em particular mas de todos (um jogo de tabuleiro, por exemplo) e que podem usar juntos.

A beleza da época natalícia não se resume às decorações, às músicas e aos presentes. Esta é uma boa altura para desenvolver nos filhos a gratidão, a generosidade e a empatia, competências de escolha, de tomada de decisão e de resistência à frustração. Mas, a par disto, é uma excelente oportunidade para reforçar os laços afetivos e a unidade familiar, pois uma família fortalecida cria adultos melhores e mais felizes.
 
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publicado por salinhadossonhos às 02:00