Palavras mágicas

 

“As palavras são películas superficiais sobre águas profundas”, disse em tempos o filósofo Wittgenstein. E Gianni Rodari pegou nesta ideia, criando a teoria de que toda a palavra deve ser como uma pedra que afunda num pântano, gerando ondas na superfície e afundando em águas cada vez mais profundas, perturbando a paz ou o sono dos objetos que por ali se encontravam, e que agora se veem obrigados a reagir e a relacionar-se. “Uma palavra escolhida ao acaso e lançada à mente produz ondas de superfície e de profundidade, provoca uma série de reações em cadeia, agitando na sua queda sons e imagens, analogias e recordações, significados e sonhos, num movimento que toca a experiência e a memória, a fantasia e o inconsciente”, refere o autor sobre a metáfora utilizada, pretendendo demonstrar que toda a palavra gera influências e vai relacionar-se com outras palavras. Uma palavra lançada ao acaso funciona como uma palavra mágica, “para escavar campos da memória que descansavam sob a poeira do tempo”. Peguemos no exemplo de Rodari, a palavra “pedra”. Numa associação mais preguiçosa, podemos relacioná-la com palavras que comecem por “p” mas não continuem com “e”, como “pai”, “panela”, “panela”; ou com palavras que começam por “pe”, como “pera”, “peso”, “pêssego”; ou com palavras que rimem com ela (“medra”, “perda”, “lerda”); ou ainda com palavras que lhe são sinónimos (“calhau”, “seixo”, “cascalho”). E a palavra continua o seu caminho, lembrando-nos daquela vez em que tropeçámos numa pedra e nos estatelámos no chão em plena rua. Ou então podemos colocar as letras umas sobre as outras e escrever a primeira palavra que vier à cabeça sobre cada uma (“pacote”, “elefante”, “dado”, relógio”, “atleta”). Ou, mais divertido ainda, escrever palavras que formem uma frase com sentido, como no exemplo que pode ver na caixa ao lado.

 

Nenhuma destas hipóteses esgota todas as possibilidades da palavra lançada ao acaso, mas já servem para perceber a ideia do tema fantástico e levá-la a cabo, deixando que as palavras mágicas gerem histórias.

 

 

 

Estranhar para entranhar

 

Embora a palavra mágica sirva de primeira inspiração para uma história, a verdade é que não basta um polo elétrico para provocar uma faísca, são preciso dois. Henry Wallon escreveu no seu livro A Origem do Pensamento nas Crianças que ele – o pensamento – nasce em dupla; a ideia de “mole” não nasce antes nem depois da ideia de “duro”, mas em simultâneo, num encontro produtivo. “O elemento fundamental do pensamento”, disse, “é essa estrutura binária, e não apenas os elementos que a compõem. A dupla, os pares, são anteriores ao elemento isolado”. Mas, para a criação de uma história, nem todas as duplas de palavras servem de igual modo: a palavra só age quando encontra outra que a provoca, que a obriga a sair dos carris do hábito e a redescobrir-se em novos significados. Se pegarmos em dois termos que, gramática e ideologicamente, se ajustem um ao outro, como, por exemplo, “avião” e “céu”, a possibilidade deles geraram uma nova ideia, e, consequentemente, uma história interessante, é mais remota do que se escolhermos termos que “lutem” um com o outro, que não se conjuguem. “Avião” e “gaveta das meias”. Um avião que vive na gaveta das meias é muito mais interessante do que um avião que voa pelo céu. Podemos imaginá-lo a sobrevoar diariamente o monte de meias, fazendo a contagem, para ver se nenhum par ficou perdido na máquina de lavar. Ou a pulverizar as meias com um spray desodorizante, para estarem bem cheirosas quando forem calçadas. Esta luta entre dois termos aparentemente inconjugáveis forma o binómio fantástico, trazendo novos sentidos às palavras e novas ideias à imaginação do narrador que tenta conjugá-las. E é isso que temos que fazer para inventar uma história seguindo esta técnica: libertar os termos, para que a imaginação os use como ferramentas, em vez de se prender a eles como correntes. Este uso de dois termos estranhos que temos que conjugar entre si, ajuda a criar a fricção necessária para o desenvolvimento da fantasia, e, logo, da história. Por isso é bom que o binómio fantástico seja escolhido ao acaso. As palavras podem ser ditas por duas pessoas, às escondidas uma da outra, ou escolhidas num livro por um dedo que não sabe ler. Só assim serão suficientemente estranhas e distantes uma da outra para que a imaginação se veja obrigada a criar um parentesco entre elas e uma história onde possam conviver.

 

 

 

O que aconteceria se…

 

Pegando no binómio fantástico, podemos fazer a ideia evoluir para uma frase, ou melhor, uma pergunta, dando origem a uma hipótese fantástica. Aqui, convém que o binómio fantástico, escolhido ao acaso, seja um sujeito e um predicado, ou um sujeito e um atributo. Por exemplo, “rinoceronte” e “pintar”: o que aconteceria se um rinoceronte aprendesse a pintar? Provavelmente pintava-se de cores alegres e as pessoas achavam que ele era um unicórnio com excesso de peso e inscreviam-no num ginásio onde ele passava o tempo todo na piscina, muito feliz da vida.

 

Todos conhecemos um exemplo famoso do que pode ser uma hipótese fantástica: o que aconteceria se um homem acordasse transformado em barata? Como sabemos, Kafka usou-a com muito sucesso no seu livro Metamorfose.

 

Mas as hipóteses são muitas, provocando situações dentro das quais os acontecimentos narrativos se multiplicam espontaneamente ao infinito. O que aconteceria se o elevador subisse até ao céu? O que aconteceria se a girafa perdesse os brincos? O que aconteceria se o garfo corresse pelas escadas abaixo? Podemos imaginar as reações das mais diversas pessoas a acontecimentos tão insólitos, os incidentes a que dão lugar, as discussões que provocam. Podemos escolher um protagonista e fazer girar a aventura à sua volta. Podemos manter a ação no reino do nonsense ou estabelecer uma relação com a realidade. Podemos fazer o que quisermos, a história é nossa!

 

http://www.paisefilhos.pt/index.php/criancas/dos-3-aos-5-anos/5723-como-inventar-uma-historia?start=1

publicado por salinhadossonhos às 12:08