Escrito por Sónia Morais Santos Quinta, 14 Março 2013

 
Às vezes, vê-los crescer custa. Deixam de ser tão nossos, passam a ser mais do mundo.

 

 

 

Não é fácil deixá-los crescer. Por um lado queremos muito que digam depressa as primeiras palavras, que comecem num instante a andar, queremos que deixem a fralda, a chucha, que durmam a noite inteira, que entrem na escola, que lhes caiam os dentes de leite, que aprendam depressa a ler. Às vezes parecemos ter pressa neste crescimento, como se os nossos filhos estivessem numa corrida de barreiras e nós ali na bancada, a gritar por eles com todas as forças. Algumas mães fazem mesmo gala na competição - “o teu ainda não anda? ah, o meu Luisinho começou aos nove meses...”, “o teu ainda não fala? ah, o meu Zezinho pronunciou a palavra ‘paradigmático’ no dia em que fez um ano” - fazendo do crescimento das crianças uma espécie de olimpíada de palmo e meio. Por outro lado, porém, às vezes custa. Sobretudo para quem tem mais do que um fi lho. Ou, para não generalizar, talvez o melhor seja dizer que a mim, às vezes, custa-me. Com um filho com quase 11 anos (medo!) e outro com quase oito, sabe bem ter uma coisinha que ainda cheira a bebé. E que ainda mantém alguns resquícios dessa primeiríssima infância. A Madalena tem três anos e, até há uma semana, ainda usava chucha. Na família, alguns começavam a agitar-se: “Ainda de chucha? Já é muito grande para isso!” Eu encolhia os ombros. “Lá estão estes a tentar que a miúda se transforme numa mulherzinha!” Sim, há a questão dos dentes. Sim, há uma altura em que temos mesmo de começar a insistir para que abandonem o vício da sucção. Mas a Mada ainda não estava preparada. Ou seria eu quem não estava? Acho que, depois de refletir um bocadinho, concluí que a resposta era um misto das duas coisas. Se é verdade que ela é, dos três, a mais fervorosa adepta das chupetas, não será também esse fervor culpa minha/nossa, que a queremos conservar bebé por mais tempo, já que os outros dois já cumprem as outras funções, de rapazinhos crescidos? Interrogações à parte, importa dizer que, no outro dia, a Madalena chegou decidida ao caixote do lixo e despejou lá para dentro praticamente todas as suas chuchas. Nós ficámos incrédulos, porque até então não tinha manifestado qualquer intenção de se desapegar do seu objeto favorito. Perguntámos se tinha a certeza, ela garantiu que sim. Mas à noite chegaram-lhe as saudades. “Quero a minha chuchinhaaaaaaa”, soluçava. Condoemo-nos. Ao fi m de meia hora de pranto, entregámos-lhe uma chucha que tinha escapado à sua fúria de bebé emancipado. Afinal, o ataque não tinha passado de um gesto solidário para com o nosso próprio afã doméstico. Ela viu-nos em arrumações e limpezas e quis contribuir, à sua maneira. Aproveitámos para dizer que aquela era, então, a derradeira chupeta. A sobrevivente. Tinha de se acostumar à ideia de que, mais dia menos dia, chegaria a hora de se despedir dela também. Não foi preciso mais nada. Dias depois, uma estomatite aftosa tomou conta da boca da caçula da família. Dezenas e dezenas de aftas na língua, nas gengivas, nos lábios, impediram- na de comer, de falar e... de usar a chucha. Aproveitámos a deixa, que parecia caída do céu aos trambolhões, e culpámos a dita cuja. Que estava muito gasta e suja, que já nem a água a livrava dos micróbios, que aquelas aftas todas tinham vindo daquele foco infeccioso chamado chucha. Tendo acreditado ou não que a sua amiga era, no fi m de contas, uma tenebrosa traidora, o certo é que a Madalena nunca mais a quis. Nunca mais a pediu, nunca mais dormiu com ela, nunca mais sequer tocou nesse assunto. E foi assim que um vírus ou fungo ou primo afastado resolveu um assunto que nós, pais, estávamos com dificuldade em resolver. Porque, às vezes, vê-los crescer custa. Deixam de ser tão nossos, passam a ser mais do mundo. E o mundo, como se sabe, não está para graças.

 

http://www.paisefilhos.pt/index.php/opiniao/sonia-morais-santos/6024-e-preciso-deixa-los-crescer-mas-custa

publicado por salinhadossonhos às 14:51