REPENSAR AS PEDAGOGIAS (por Teresa Vasconcelos)

“(...) o desenvolvimento intelectual é fortalecido quando as crianças têm oportunidades frequentes para conversar sobre coisas que sejam importantes para elas.”

As pesquisas dos anos 70 ensinaram-nos que se a educação de infância (0-6 anos) não for de qualidade causa limitado impacto no desenvolvimento ulterior da criança, tornando-se uma oportunidade perdida.

Apesar do claro investimento neste nível educativo em anos recentes, continuamos a constatar, na prática de um número significativo de jardins de infância, modelos não construtivistas de aprendizagem, num suceder de atividades que não implicam as mentes das crianças. Ocupa-se o seu precioso tempo com a elaboração de tarefas mecânicas, fichas pré-concebidas e sem sentido. O mercado foi invadido de materiais pedagógicos, organizados “de acordo com as Orientações Curriculares para a Educação Pré-Escolar”, mas que estimulam apenas aquilo que alguns autores apelidam de “competências académicas” (Katz, 2004)1, isto é, indutoras de uma aprendizagem mecânica e não construída da literacia e da numeracia.

Neste contexto, e salientando que corremos o risco de “desbaratar as mentes das crianças”, sublinho a necessidade de a educação de infância promover claramente o desenvolvimento intelectual das crianças através do recurso a linguagens múltiplas e englobando não apenas os conhecimentos e capacidades, mas também a sua sensibilidade emocional, moral e estética. Katz (2004)¹ afirma que as experiências de carácter intelectual fortalecem as disposições inatas das crianças em:
- fazer sentido da sua própria experiência:
­ colocar hipóteses, analisar, elaborar conjeturas;
- fazer previsões e verificá-las;
- persistir na resolução de problemas;
- tomar iniciativas e ser responsável pelo que se conseguiu fazer;
­ antecipar os desejos dos outros, as suas reações (disposições sociais).

Pelo contrário, e ainda segundo Katz (2004), o enfoque académico incide em matérias que:
- requerem cuidadosa instrução, repetição, prática que pode ser certa ou errada, correta ou incorreta, até se conseguir um completo domínio;
- não podem ser aprendidas através de um processo de descoberta.

Neste caso, há uma exigência de que as crianças assumam um papel passivo, recetivo, em vez de um papel ativo. Ora a investigação mais recente tem demonstrado que o desenvolvimento intelectual é fortalecido quando as crianças têm oportunidades frequentes para conversar sobre coisas que sejam importantes para elas. Neste sentido insiste-se numa necessidade de metodologias de trabalho ativas, construtivistas, que impliquem a criança em processos de investigação, tais como o trabalho de projeto. A melhor forma de estimular o desenvolvimento intelectual das crianças é colocar-lhes interrogações, situações dilemáticas, problemas, possibilidade de escolhas múltiplas, oportunidade de frutuosas discussões, não proporcionando soluções uniformes ou estandardizadas tais como as que são colocadas por grande parte dos materiais pedagógicos que se encontram disponíveis no mercado.

Com o apoio atento do educador, as crianças tornam-se competentes, isto é, capazes de saberem fazer em ação, utilizando de forma integrada conhecimentos, capacidades e atitudes. Cabe aos profissionais de educação, dentro deste quadro de ideias, encontrar estratégias para as tornar seres intelectualmente alerta, com vontade de conhecer o mundo e com uma inesgotável sede de continuar sempre a aprender. Não desperdicemos as suas mentes!

 

¹Katz, L. (2004) Perspetivas sobre a Qualidade de Programas para a Infância. Conferência na ESE de Lisboa. 16-10-2004.

http://www.portoeditora.pt/espacoprofessor/pre-escolar-repensar-pedagogias

publicado por salinhadossonhos às 16:06