Não gosto é do verão!

Artigo por Eduardo Sá Sexta, 27 Julho 2012 na revista Pais & Filhos

O que custa nas férias é que a ideia de que «há mar e mar, há ir e voltar» não tem nada de bucólico. Sobretudo, quando o mar implica levar um guarda-sol, várias toalhas, o balde com a pá, o moinho de areia, a bóia, as braçadeiras e o colchão. Mais a geleira. Dois bronzeadores. E vários lanches.

O que custa nas férias não é o calor. É esta obrigação de abrir as cartas que se barricam nas gavetas. E de arrumar a secretária, a dispensa e a garagem. E ter de fazer contas para os impostos mesmo que o Estado faça de Tio Patinhas e nós, desejando ser os Irmãos Metralha, nos resignamos a ser... patos. E o regresso às aulas, com listas de livros que um dia hão-de ser gratuitos e que, no entretanto, sobem sempre um pouco mais que a inflação, para não incorrermos no vício de imaginar que a educação não custa a todos (mesmo que nos fique a ideia duma certa cartelização amiga dos manuais escolares). E as mochilas, os dossiês, os cadernos e os marcadores que fazem com que o Outono comece em Agosto.

O que custa nas férias é não podermos contrariar a ideia delas serem amigas do descanso. Mesmo quando temos de lidar com o lado-Gourmet dos nossos filhos. E ao contrário de tudo o que imaginámos - sempre que, entre suspiros, íamos riscando os dias que faltavam para elas - temos de acordar, logo de madrugada, com pequenos índios - aos saltos, na cama - com um apetite generoso pelo pequeno-almoço, e na companhia do Canal Panda, num tom mais ou menos esganiçado.

O que custa nas férias é que a ideia de que «há mar e mar, há ir e voltar» não tem nada de bucólico. Sobretudo, quando o mar implica levar um guarda-sol, várias toalhas, o balde com a pá, o moinho de areia, a bóia, as braçadeiras e o colchão. Mais a geleira. Dois bronzeadores. E vários lanches. Aliás, não há direito que, poucos minutos depois dos pais estenderem a toalha e espalharem o bronzeador, com requinte de massagista, haja uma lufada de ar fresco misturada com uma tempestade de areia, acompanhada por uma pisadela, uma bola que se perde ou uma birra que, como se fosse uma vuvuzela, fazem do lado pachorrento das férias uma miragem. Já não falando no trabalho para o bronze dos pais atropelado, em cada cinco minutos, pelas bolas de Berlim, a bolacha americana, mais o «quero fazer chichi!», o «já posso ir à água?» e o «falta muito para irmos embora?...» que fazem dum dia de praia um sossego à beira-mar uma miragem.

Quem disse que as filas do trânsito, o mau-humor dedicado dos chefes, as listas de compras no final do dia ou o furor de tutores de pais de alguns professores (que capricham nos trabalhos de casa como aperitivo para o jantar) fazem franjas com a nossa paciência? Quem disse que as férias actuam como uma lipoaspiração no nosso stress? E que temos direito a dias enfadonhos se até o calor vai férias e nos esturra a paciência?... Será que, ao menos, poderemos trautear uma música amena como, por exemplo: «Não gosto é do Verão!!!»?

Quem imaginou as férias como se fosse um SPA, a céu aberto, entre água de coco e melodias caribenhas, desengane-se. Aliás, não sei quem inventou que ser amigo do ambiente é fazer poços e piscinas. E jogar com raquetes e correr pela praia. E apanhar conchinhas, à beira-mar. E vir carregado com elas, para além da geleira, do guarda-sol e dos sacos com o lixo. E se nos poupamos a canseiras no ginásio todo o ano, porque é que não podemos ter pouca bateria em Agosto, enquanto trabalhamos para o bronze, e temos de fazer Pilates com 40º, de cada vez que nos baixamos trinta vezes, todas as manhãs, para juntar pedrinhas? Não é justo para os nossos escaldões! Porque é que não podemos ser amigos do ambiente e não deixamos as conchinhas e as pedrinhas sossegadas no seu habitat? E porque é que os nossos queridos pés têm de virar BTT enquanto exploramos a vida animal que se perde por entre as rochas? E quem nos garante que o buraco de ozono não se torna amigo das insolações e não encarniça a cabeça dos nossos anjinhos tornando-os campeões de beach wrestling, com a ajuda de toneladas de areia que estaciona, invariavelmente, em cima de nós?

O que custa nas férias é que nem aí nos transformarmos em pais-multibanco, com direito a «procure o multibanco mais próximo», a «tente mais tarde» ou a «excedeu o número de tentativas permitidas com o seu cartão». Porque nas férias nos sentimos obrigados a ser a D. Branca dos nossos filhos. De cada vez que nos distraímos com a semanada… os juros não param de se multiplica! Posso estar enganado, mas com a quantidade de jantares de despedida, mais os sorvetes ao fim da tarde, e o «vou sair, mas só como uma pizza» que se misturam com o barulho das ondas, há qualquer coisa no ar que me leva a supor que eles nos tomam como um paraíso fiscal, tal é a forma enxofrada com que reagem quando fazemos de Tribunal de Contas.

O que custa no Verão é não podermos tirar férias como pais. Férias repartidas, que seja. Com direito a subsídio de pais (já que 13º mês como pais temos nós todos os anos…). Mas o que não se entende é que, depois do primeiro dia de férias dos filhos, os pais suspirem, corram para as fotografias e reajam como se o Inverno, dentro deles, acabasse de chegar. Será do sol, eu sei, mas, às vezes, o coração dos pais parece uma incubadora do pecado original!
publicado por salinhadossonhos às 15:19